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Resiliência e infraestrutura natural para garantir o futuro – e o presente – das cidades

As fortes chuvas que atingiram o Rio de Janeiro em meados de março e no início de abril, alagando diversos pontos, causando a morte de 10 pessoas e levando a cidade a decretar estágio de crise, chamam atenção para os impactos cada vez mais severos dos fenômenos climáticos extremos causados pelo aumento da temperatura média do planeta de um lado e, de outro, para a dificuldade das cidades em se preparar para evitar ou amenizar esses impactos. Medidas de infraestrutura natural e resiliência podem ajudar as cidades em sua capacidade de prevenção e recuperação.

As inundações estão diretamente relacionadas ao processo de urbanização e à modificação das áreas naturais onde a cidade cresceu. A expansão urbana acaba fazendo com que as áreas de várzeas sejam ocupadas, o que gera riscos para a população e possíveis prejuízos ambientais. Aliado a isso, o excesso de asfalto e concreto tira o espaço da vegetação, que contribuiria na absorção de água, e produz mais escoamentos, o que só agrava as inundações.

O que chamamos de resiliência climática refere-se à capacidade de resposta e recuperação diante de um evento extremo. Ou seja, após ser atingida por uma tempestade, quanto tempo uma área leva para se recuperar do impacto. No caso das inundações, que com cada vez mais frequência e intensidade atingem as cidades – o Rio não é um caso isolado –, há um conjunto de medidas que podem ajudar a construir resiliência e amenizar os impactos das mudanças climáticas. Estamos falando de infraestrutura natural.

O que é infraestrutura natural

Infraestrutura natural ou infraestrutura verde refere-se a um conjunto de soluções baseadas na natureza que visam à conservação, manejo ou restauração de ecossistemas e áreas verdes que reabilitam a paisagem a fornecer serviços essenciais para a sociedade. São medidas que podem potencializar a infraestrutura tradicional, de concreto, e contribuem principalmente para a gestão dos recursos hídricos – tanto no que diz respeito à quantidade e à qualidade da água que chega às cidades para consumo quanto em termos de planejamento urbano, com medidas que ajudam a evitar enchentes e deslizamentos (saiba mais nos estudos realizados pelo WRI no Sistema Cantareira, em São Paulo, e no Sistema Guandu, do Rio de Janeiro).

<p>Vegetação nas margens do Rio Papudos, no Rio de Janeiro (Foto: Marizilda Cruppe/WRI Brasil)</p>

Vegetação nas margens do Rio Papudos, no Rio de Janeiro (Foto: Marizilda Cruppe/WRI Brasil)

Sistemas naturais como florestas, zonas úmidas e áreas verdes às margens de cursos d’água podem melhorar o desempenho da infraestrutura construída, também chamadas de “infraestrutura cinza”. No âmbito das áreas urbanas, telhados verdes, por exemplo, podem reter água da chuva, reduzindo inundações e estresse nos sistemas de esgoto.

Esses sistemas já são reconhecidos por sua capacidade de auxiliar e complementar serviços essenciais como o tratamento e o armazenamento de água, o gerenciamento de inundações, irrigação e a geração de eletricidade. Ainda há, contudo, uma lacuna de conhecimento e soluções sobre como integrar os dois tipos de infraestrutura – verde e cinza – para beneficiar pessoas, cidades e meio ambiente. Foi sobre essa questão que pesquisadores do WRI e do Banco Mundial se debruçaram ao desenvolver o estudo “Integrando o verde e o cinza”. Na sequência, conheça algumas das medidas recomendadas pelo estudo que podem ajudar as cidades na prevenção de enchentes e, consequentemente, na construção de resiliência.

Infraestrutura natural e a prevenção de inundações

Estamos acostumados a construir diferentes tipos de estruturas para facilitar ou resolver questões cotidianas no ambiente urbano. No que diz respeito à gestão da água, construções como barragens, estações de tratamento, encanamento e reservatórios podem ser ainda mais efetivas se aliadas à infraestrutura natural, dando início a uma nova geração de soluções – mais baratas, resilientes e sustentáveis.

A infraestrutura natural pode amenizar ou evitar os impactos de enchentes ao absorver, filtrar e desacelerar o escoamento da água da chuva. Isso pode ser feito por meio de intervenções de baixo custo que complementam as estruturas tradicionais citadas anteriormente, conforme recomendado pelo estudo do WRI e do Banco Mundial. Veja alguns exemplos:

  • Telhados verdes: ajudam na absorção da água da chuva; são capazes de reter, em média, 75% da água que recebem.

  • Pavimentos permeáveis: o uso de concreto e asfalto porosos ou blocos de pedras como pavimentação permite que a água seja absorvida pela superfície desses materiais e absorvida pelo solo. Podem reduzir até 90% do volume de água escorrendo nas ruas.

  • Áreas de biorretenção: são jardins de chuva ou “trincheiras” de vegetação que ajudam a coletar, absorver, filtrar e armazenar a água. Ajudam a controlar o escoamento da água da chuva durante tempestades.

  • Áreas verdes: espaços como praças, parques, morros ou até pequenas áreas florestais no meio urbano. Além de absorverem a água da chuva, ajudam a reduzir o risco de deslizamentos em regiões íngremes.

  • Restauração de florestas no entorno das cidades: a medida ajuda a desacelerar o escoamento de água, resultando na redução de enchentes. A vegetação no entorno de corpos hídricos também contribui para a purificação da água.

  • Construção de zonas úmidas: construir áreas naturais que absorvam água também pode contribuir de forma significativa: meio hectare (aproximadamente meio campo de futebol) pode armazenar de 3,8 a 5,7 milhões de litros de água durante uma enchente, reduzindo a carga nos sistemas de escoamento tradicionais.

Pensando no futuro – e no presente

Em casos de tempestades como a que atingiu o Rio, sabemos que as populações de baixa renda são as mais vulneráveis e também as mais afetadas. Outro estudo desenvolvido pelo WRI, “Mais forte que a tempestade”, apresenta uma ferramenta de planejamento criada para ajudar as cidades a mensurar as diferentes necessidades das comunidades em termos de resiliência climática.

A Avaliação da Resiliência em Comunidades Urbanas (UCRA, na sigla em inglês) foi aplicada em sete comunidades brasileiras: duas no Rio de Janeiro e cinco em Porto Alegre, cidades que passam por um crescimento urbano desigual e enfrentam fenômenos climáticos cada vez mais severos. A avaliação ajuda as cidades a avaliarem como as comunidades mais pobres podem responder melhor aos riscos climáticos. Também propõe métodos de participação que identificam soluções a partir do conhecimento e das necessidades locais.

Combinadas, as duas estratégias podem ajudar as cidades a avançarem em sua capacidade de prevenir e, também, de se recuperarem dos impactos das mudanças climáticas. As medidas de infraestrutura natural associadas ao planejamento possibilitado pela ferramenta UCRA potencializam a construção de resiliência sem desconsiderar as condições e necessidades das pessoas mais afetadas. Trata-se, em suma, da necessidade de pensar a cidade – e as florestas ao seu redor – como um conjunto de setores e espaços interdependentes que exigem soluções abrangentes e não isoladas. Medidas distribuídas no espaço urbano, de curto, médio e longo prazos, que preparem as cidades não só para o futuro, mas para o que já enfrentam no presente.

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